TRAVESSIA RANCHO CAIDO - PNI


 A Travessia Rancho Caído é uma das experiências mais autênticas e encantadoras do Parque Nacional de Itatiaia, unindo natureza exuberante, diversidade de biomas e aventura. Também conhecida como Travessia Itatiaia x Maromba, esse percurso de dois dias leva os caminhantes da parte alta do parque, a cerca de 2.400 metros de altitude, até a charmosa vila de Maromba, finalizando na famosa Cachoeira do Escorrega, a aproximadamente 1.500 metros.

Durante o trajeto, os aventureiros percorrem paisagens marcadas pelos Campos de Altitude, com sua vegetação rasteira e vistas amplas, e, aos poucos, acompanham a transição para a rica e densa Mata Atlântica. Com nível intermediário, pouca dificuldade técnica e boa disponibilidade de água ao longo do caminho, é uma travessia ideal para quem deseja se iniciar em trekkings com acampamento selvagem, explorando de forma imersiva as belezas da Serra da Mantiqueira.


Como chegar à parte alta do Parque Nacional do Itatiaia

A forma mais prática de acesso à parte alta do Parque Nacional do Itatiaia é de carro. Saindo de São Paulo, deve-se seguir pela Rodovia Presidente Dutra (BR-116) até Engenheiro Passos e, no km 330, acessar a BR-354 em direção a Itamonte. A viagem leva cerca de 3 horas (sem trânsito), seguida por mais 40 minutos de estrada de terra até a portaria do parque. É importante abastecer o carro antes de subir, pois não há postos no trajeto da BR-354. Uma boa opção é o posto GRAAL do Alemão, na região de Queluz.

Como a travessia começa em um ponto e termina em outro, é necessário organizar o resgate. Uma opção é combinar previamente com um motorista local para transportar o veículo da entrada (portaria do Marcão) até o ponto final da trilha, na parte baixa do parque. No caso citado, o serviço foi feito pelo Adauto, funcionário do parque, que garantiu comodidade ao deixar o carro disponível no fim da trilha.


Roteiro

Dia 1: Início no Posto Marcão (parte alta do Parque Nacional do Itatiaia), passando pelo Circuito dos 5 Lagos, Vale do Aiuruoca e Vale dos Dinossauros. Acampamento selvagem no Rancho Caído.

Dia 2: Saída do Rancho Caído com descida até a Cachoeira do Escorrega, na vila de Maromba (RJ), finalizando a travessia em meio à Mata Atlântica.


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1º Dia - Inicio no posto do Marcão 

Essa é uma travessia que já tive o privilégio de fazer diversas vezes e, mesmo assim, o encanto permanece como se fosse a primeira. A Travessia Rancho Caído é um daqueles percursos que fazem parte da minha rotina de montanha quase todo ano, uma tradição pessoal que se renova a cada passo.
O motivo? É simples: a beleza da região é magnífica e, ao mesmo tempo, indescritível. A cada retorno, descubro novos detalhes, novos tons na paisagem, novas sensações no mesmo caminho. É um trajeto que conecta altitude, diversidade de biomas e uma experiência imersiva com a natureza.
Assim como a clássica Marins x Itaguaré que segue sendo o meu roteiro favorito, a Travessia Rancho Caído ocupa um lugar especial na minha temporada de montanha. Ambas me lembram o porquê de amar tanto estar ao ar livre: o desafio, a contemplação, e a paz que só a serra é capaz de oferecer.




Chegamos à portaria da parte alta do Parque Nacional do Itatiaia por volta das 4h da manhã, ainda no escuro da madrugada. Como a apresentação do ingresso e a liberação só começariam por volta das 6h30, aproveitamos esse intervalo para descansar um pouco dentro do carro afinal, estávamos virados da viagem. O frio era intenso e, pouco depois, descobrimos que aquela madrugada havia registrado a temperatura mais baixa do Brasil naquele momento: impressionantes -9,4 °C, conforme os dados da estação meteorológica do Campo Belo, dentro do próprio parque.

Quando finalmente fomos liberados para assinar os termos de entrada e iniciar a travessia, o frio estava tão cortante que mal conseguíamos segurar a caneta os dedos doíam só de tentar assinar o papel. Encontramos o Adauto, que ficou responsável por levar nosso carro até o ponto final da trilha, na vila de Maromba, e demos início ao nosso caminho.

O frio era tanto que decidimos não tomar café ali mesmo; preferimos começar a caminhada e parar um pouco mais à frente, já em movimento. Iniciamos a trilha a partir do Posto Marcão, seguindo pelo caminho dos 5 Lagos. Logo nas primeiras subidas, à esquerda da trilha, o cenário já se revelava espetacular.

O chão do parque estava completamente branco, coberto por uma grossa camada de geada, criando uma paisagem quase surreal. E, acima de nós, o céu estava simplesmente maravilhoso um verdadeiro tapete de nuvens visto do alto, uma daquelas visões que fazem cada esforço valer a pena.



Por volta das 7h10 começamos efetivamente a caminhada, e só por volta das 8h20 fizemos nossa primeira parada para tomar café e apreciar a vista com mais calma. A trilha nesse trecho é tranquila. Todo o parque recebe manutenção constante, o que garante trilhas bem definidas, em estilo rústico, com poucos obstáculos. Ainda assim, é importante manter a atenção: apesar de sinalizadas, estamos em ambiente natural, e um simples descuido pode acabar em lesão por pisada errada.

Após o café, seguimos com nosso objetivo da manhã: fazer um ataque à Pedra do Altar. O trecho envolveu uma pequena subida entre rochas até alcançarmos uma bifurcação. À esquerda, o caminho seguia em direção à continuação da travessia Rancho Caído e à Serra Negra; à direita, a trilha levava à Pedra do Altar e ao Abrigo Rebouças.

Embora subir os picos do parque não seja obrigatório durante a travessia, vale muito a pena conhecer alguns deles, principalmente a Pedra do Altar. Localizada bem no coração do parque, ela oferece uma vista impressionante e é uma das montanhas mais acessíveis da região.

Deixamos nossas cargueiras na bifurcação e seguimos com uma mochila de ataque, levando água e alguns snacks. Por volta das 10h já estávamos no cume da Pedra do Altar, a 2.665 metros de altitude. Ela é a décima primeira montanha mais alta do Brasil, localizada à esquerda do famoso Pico das Agulhas Negras. Seu nome vem do formato característico, que lembra um altar, e o melhor: o acesso é relativamente fácil, ideal para quem quer apreciar grandes visuais sem exigir demais tecnicamente.


Após aproveitarmos um bom tempo no cume da Pedra do Altar, curtindo o visual e recuperando o fôlego, seguimos de volta até o ponto onde havíamos deixado nossas cargueiras. De lá, retomamos o percurso rumo à Cachoeira do Aiuruoca, que muitos consideram a cachoeira mais alta do Brasil em termos de altitude, já que está situada na cota dos 2.400 metros.

O sol já começava a aparecer com força, aquecendo um pouco o ambiente e deixando a paisagem ainda mais viva. Nosso objetivo era claro: chegar à cachoeira e preparar o almoço com calma, curtindo aquele visual de tirar o fôlego.

Por volta do meio-dia, alcançamos a parte superior da Cachoeira do Aiuruoca, onde nos acomodamos em suas bordas para cozinhar e fazer nossa refeição com tranquilidade. A vista dali é espetacular perfeita para recarregar as energias.

Após o almoço, descemos até a parte inferior da cachoeira, de onde se tem um visual impressionante da queda d’água. Para completar o cenário, o sol batia na água e formava um lindo arco-íris entre os respingos cristalinos. Um detalhe curioso (e gelado): reparei que no canto direito da queda havia formações de gelo sobre as pedras, prova de que a água ainda estava extremamente fria o que não surpreende, considerando que estávamos na cachoeira com maior altitude do Brasil.



Ficamos por cerca de uma hora na Cachoeira do Aiuruoca, preparando o almoço, descansando e aproveitando ao máximo aquele ambiente impressionante. Por volta das 13h30, arrumamos tudo e retomamos a trilha, desta vez com destino a mais uma atração do parque: a Pedra do Sino de Itatiaia, uma montanha lindíssima e imponente.

Diferente dos atrativos anteriores, a subida à Pedra do Sino exige um pouco mais de atenção e cautela, especialmente por envolver trechos de escalaminhada em rocha. Os totens ao longo do caminho são fundamentais para não se perder, então vale sempre manter os olhos atentos à sinalização.

Ao chegarmos na bifurcação que leva ao cume, deixamos novamente as cargueiras e seguimos apenas com uma mochila leve, facilitando o ritmo da subida. A trilha até o topo é bem íngreme, e por ser feita sobre rochas, é importante controlar a respiração, manter um ritmo constante e fazer apenas pausas curtas para recuperar o fôlego.

Na parte final da ascensão, o terreno se torna curioso e desafiador. O chão parece esburacado, com formações que lembram uma superfície lunar. Já no trecho derradeiro, há um ponto mais exposto e inclinado, que exige bastante atenção. Respeitar o próprio limite aqui é essencial.


Ao alcançar o cume, somos presenteados com um visual impressionante para o Pico das Agulhas Negras, a montanha mais alta do parque, que inevitavelmente acaba atraindo todos os olhares. Ainda assim, o topo da Pedra do Sino tem sua própria beleza única. Sob uma pedra, há um livro de cume, onde os visitantes podem deixar seus nomes e registros um toque especial para quem curte colecionar memórias dessas experiências.

Com seus 2.670 metros de altitude, a Pedra do Sino de Itatiaia é a  montanha mais alta do Brasil, e subir até lá é, sem dúvida, um dos pontos altos dessa travessia.



Seguimos pela trilha em ritmo tranquilo e, por volta das 16h30, chegamos ao único camping permitido na Travessia do Rancho Caído. O céu estava pintado por um tom laranja incrível, criando um contraste mágico com o vale ao nosso redor um cenário daqueles que fica na memória.

Montamos nosso acampamento com calma. Já havia alguns outros grupos por ali, e a energia era boa. Assim que organizamos tudo, trocamos de roupa e colocamos as camadas de frio, pois a previsão para a noite era de temperaturas negativas novamente.

Começamos a preparar o jantar o clássico e reconfortante macarrão, acompanhado de um bom vinho e outros alimentos nutritivos para repor a energia gasta durante o dia. Depois do jantar e de algumas conversas descontraídas com os amigos, o frio começou a apertar e foi hora de entrar na barraca.

Nada como o calor do saco de dormir em uma noite gelada na montanha. Foi uma noite de descanso merecido após um dia intenso. E, sendo bem sincero, sou suspeito para falar, mas durmo melhor na montanha do que em casa. A paz e o silêncio ali são simplesmente incomparáveis.




2º Dia - Camping rancho caido para Vila Maromba - RJ

Após uma boa noite de sono, acordamos com o clima ainda bem frio. Mais tarde, ficamos sabendo que os termômetros marcaram cerca de -7,7 °C naquela região do parque. Dois dias memoráveis de frio daqueles que animam os montanhistas raiz e os caçadores de temperaturas negativas (risos).

Preparamos um café da manhã reforçado, com direito a muito café preto e uma bela tapioca com Nutella sim, gourmetizamos mesmo, porque ninguém é de ferro!

O segundo dia da travessia é consideravelmente mais leve. O trajeto é predominantemente de descida, e embora o visual continue belíssimo, não há atrativos tão marcantes quanto os do primeiro dia. Ainda assim, é uma etapa agradável, perfeita para fechar a jornada com tranquilidade e contemplação.




No segundo dia da travessia, existe a opção de fazer a ascensão ao Pico do Maromba, que oferece um visual belíssimo da região. Por muito tempo, a subida esteve proibida, mas ainda assim muitos continuaram explorando a trilha. Seu acesso está localizado um pouco à frente do camping, em uma bifurcação à direita. A trilha é bem fechada e, para quem não conhece bem o caminho, o ideal é utilizar GPS e seguir com segurança.

Optamos por seguir a descida com tranquilidade, aproveitando o momento para conversar entre amigos e admirar a paisagem. Estar nesse lugar, com saúde e disposição para viver uma aventura como essa, é sempre uma honra. É o tipo de experiência que renova o corpo e a mente.

Por volta das 12h20, chegamos ao nosso destino final: a Cachoeira do Escorrega, na vila de Maromba, no Rio de Janeiro. O local estava cheio de visitantes, e muitos ficaram curiosos ao nos ver chegando do meio do mato, com as cargueiras nas costas. Vários vieram perguntar qual trilha havíamos feito e ficaram surpresos com a travessia.

Enquanto todos admiravam a cachoeira, ninguém parecia ter coragem de encarar aquelas águas congelantes. E, sinceramente, com o frio que fazia, era compreensível. Encerramos nossa jornada com o coração leve, gratos por mais uma travessia concluída com sucesso.

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