HUAYNA POTOSI


 A Bolívia é um verdadeiro parque de diversões para montanhistas. Com dezenas de picos acima dos 5.000 metros e diversas cadeias montanhosas praticamente intocadas, o país oferece cenários deslumbrantes, desafios variados e uma autenticidade rara de se encontrar em outros destinos andinos. Para os apaixonados por altitude, gelo e aventura, poucos lugares no mundo entregam tanto em tão pouco espaço. 

Entre essas montanhas impressionantes, o Huayna Potosí se destaca como uma das mais icônicas. Localizado a apenas 25 km de La Paz, na imponente Cordilheira Real, o Huayna se ergue a 6.088 metros de altitude, dominando a paisagem ao norte da capital e figurando entre os picos mais desejados da América do Sul.

Embora sua rota normal não exija técnicas avançadas de escalada, o Huayna Potosí impõe respeito. A altitude extrema, o frio intenso e a travessia de geleiras tornam essa montanha um desafio real, exigindo preparo físico, aclimatação adequada e espírito de superação.

Curiosidades 

- O nome vem do idioma aimará e significa “Potosí Jovem”, em alusão à cidade histórica de Potosí.
- Sua primeira ascensão bem-sucedida foi em 1919, realizada por alpinistas alemães, após tentativas anteriores sem sucesso.
- Do cume, em dias claros, é possível avistar o Lago Titicaca, o Altiplano Boliviano, e até as salinas do sul do país.
- A montanha faz parte da Cordilheira Real, uma das mais impactantes dos Andes, com vários picos que ultrapassam os 6.000 metros.

O Huayna Potosí é mais do que uma montanha: é uma porta de entrada para o montanhismo de altitude, uma experiência intensa e inesquecível, onde cada passo em direção ao cume é também uma jornada interior.

A Importância da Aclimatação: O Primeiro Desafio Antes do Cume

Antes mesmo de pensar em colocar os crampons e pisar no gelo, é fundamental entender que a verdadeira preparação para o Huayna Potosí começa com a aclimatação. Subir a uma montanha de 6.088 metros não é apenas um teste físico, mas também uma prova de resistência do corpo à altitude extrema algo que não deve ser subestimado.

Embora o Huayna Potosí seja frequentemente citado como uma montanha "acessível", especialmente entre viajantes e mochileiros na Bolívia, não há nada de fácil nos 6 mil metros de altitude. O frio é intenso, o ar rarefeito dificulta até as tarefas mais simples, e o mal de altitude (ou soroche, como é chamado localmente) pode afetar qualquer pessoa, independentemente do preparo físico.
Sabendo disso, investi em uma aclimatação progressiva e consciente, com o objetivo de preparar meu corpo e minimizar os riscos no dia da ascensão. Minha preparação incluiu três trilhas fundamentais, cada uma aumentando gradualmente a exposição à altitude:

Chacaltaya (5.435 m): Um dos pontos mais altos acessíveis de carro no mundo, serve como um excelente primeiro contato com a altitude. A curta caminhada até o antigo refúgio e o mirante permite ao corpo começar a se adaptar acima dos 5.000 metros.

Pico Austria (5.350 m): Localizado na região de Condoriri, essa trilha é mais exigente fisicamente e oferece uma paisagem espetacular, com vista para várias montanhas da Cordilheira Real. É uma subida excelente para testar fôlego, ritmo e adaptação à altitude em uma caminhada de verdade.

Laguna Esmeralda e base do Pico Charquini (5.050 m): Uma trilha menos conhecida, mas incrivelmente bonita. A caminhada até a Laguna Esmeralda, situada aos pés do glaciar do Charquini, é uma forma eficaz de manter o corpo em atividade em altitude e continuar o processo de aclimatação de maneira segura.

Esse período prévio de aclimatação foi crucial para o sucesso da minha ascensão ao Huayna Potosí. Sem ele, provavelmente teria enfrentado dores de cabeça, náuseas e perda de energia sintomas comuns do mal de altitude. A lição é clara: quanto mais tempo o corpo tiver para se adaptar, maiores as chances de sucesso no cume.

Roteiro 

A ideia é realizar a ascensão ao Huayna Potosí em um roteiro de 2 dias e 1 noite, partindo de La Paz. No primeiro dia, o plano é seguir de transporte até a base da montanha (aproximadamente 4.700 m), e então iniciar a caminhada até o acampamento alto Las Rocas, a cerca de 5.200 metros de altitude. Após o jantar, o descanso será breve com despertador programado para a meia-noite.
O ataque ao cume começa por volta da 1h da manhã, atravessando as geleiras da Cordilheira Real até alcançar os 6.088 metros de altitude nas primeiras horas da manhã do segundo dia. Após curtir o cume e registrar o momento, a descida segue de volta até o acampamento Las Rocas, onde será feita uma breve pausa para descanso e organização do equipamento. Em seguida, a descida final até a base e o retorno a La Paz estão previstos para o início da tarde.



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1º Dia La Paz > Base Huayna > Acampamento alto

Saímos por volta das 10h da manhã de La Paz, mais precisamente de Calacoto, onde eu estava hospedado. A mochila cargueira pesava cerca de 15 kg, carregada com todos os equipamentos essenciais para alta montanha: bota dupla, crampons, piolet, capacete, headlamp, calça de neve, roupas em camadas, pluma de ganso, além de itens menores, mas igualmente importantes.
Após cerca de 1h30 de viagem, chegamos à portaria da base do Huayna Potosí, onde é necessário pagar uma taxa de entrada de aproximadamente 50 bolivianos (valor para estrangeiros). A base está localizada a cerca de 4.700 metros de altitude, e a partir dali começamos a subida até o Acampamento Alto Las Rocas (5.200 m), já com todo o peso nas costas.
O clima estava estável ao sair de La Paz, com céu azul e tempo relativamente aberto. No entanto, à medida que nos aproximávamos da montanha, o cenário mudou: uma neblina espessa tomou conta da paisagem, a temperatura caiu e o vento começou a soprar mais gelado, anunciando as condições que enfrentaríamos nas próximas horas.
A caminhada com a cargueira em altitude exige ritmo constante, foco e controle da respiração. Subir 500 metros com esse peso, mesmo em uma trilha bem marcada, é desgastante  e o corpo sente cada passo.
O caminho até o abrigo é bem demarcado, com uma trilha visível entre pedras e trechos de terreno solto. Apesar de haver muitas rochas instáveis ao longo do trajeto, a paisagem é bonita e já começa a transmitir a grandiosidade da Cordilheira Real. No entanto, naquela altura do dia, a neblina já estava mais densa, e com o vento frio aumentando, minha percepção do ambiente estava limitada o visual parecia se esconder atrás de uma cortina branca.
A subida foi exigente, mas relativamente tranquila, feita em ritmo constante, respeitando a altitude. Por volta das 14h, chegamos ao abrigo Las Rocas, que seria nossa base para o ataque ao cume. Localizado a cerca de 5.200 metros de altitude, o refúgio é simples, mas funcional, e já transmite a sensação de estar em um ambiente inóspito e de alta montanha.
Até aquele ponto, ainda não havia neve no terreno, o que muda completamente a partir dali. Do abrigo em diante, o caminho segue por terreno glacial, onde o uso de equipamentos técnicos se torna indispensável.


Após chegar ao abrigo, fizemos uma pausa para o almoço, simples e típico da Bolívia: o clássico frango (“pollo”) com arroz e batata (“papas”), acompanhado de um mate de coca quente, que ajuda a aliviar os efeitos da altitude. Com o corpo reabastecido, aproveitei para preparar todo o equipamento para a madrugada organizei os crampons, piolet, arnês, roupas térmicas e deixei tudo pronto para não perder tempo depois.
Programei o alarme do celular para meia-noite e, com tudo organizado, entrei direto no saco de dormir, tentando descansar um pouco antes do ataque ao cume. Já fazia bastante frio dentro do abrigo, e o cansaço começava a pesar. Me sentia sonolento e esgotado, mesmo sem grande esforço físico naquele momento um claro sinal de que a altitude já começava a afetar meu corpo. Ainda assim, tentei relaxar e deixar o corpo recuperar o máximo possível antes do desafio que viria nas primeiras horas da manhã.

2º Dia Abrigo até Cume Huayna Potosi > Volta a La Paz

Para minha surpresa, consegui dormir bem até me espantei comigo mesmo. Estava ansioso, como era de se esperar, e em condições normais provavelmente teria passado a noite em claro. Mas o cansaço acumulado e o ar rarefeito, de alguma forma, me levaram a um sono profundo.
O alarme tocou pontualmente à meia-noite, e levantei com a mente focada e o corpo ainda despertando do frio. Tomei um mate de coca bem quente com bastante açúcar, acompanhado de algumas bolachas doces uma combinação simples, mas eficaz para dar energia naquele momento. Em seguida, comecei a me vestir em camadas: segunda pele, fleece, jaqueta de pluma e anorak. Coloquei a bota dupla, o capacete e a headlamp. Os crampons ainda seriam ajustados mais à frente, no início do glaciar.
Ao sair do abrigo, levei um verdadeiro susto: o terreno que horas antes era completamente rochoso agora estava totalmente coberto de neve. Na chegada, não havia nenhum sinal de gelo; era só pedra e chão seco. Durante a noite, porém, havia nevado bastante, mudando completamente o cenário.
Essa mudança repentina já indicava que a ascensão seria mais difícil. Com neve recém-caída, o terreno tende a ficar mais fofo e instável, exigindo mais esforço físico, mais técnica e mais atenção durante toda a subida. Ainda assim, o visual branco e silencioso ao redor criava uma atmosfera mágica a montanha nos convidava, mas deixava claro que o desafio seria grande.



Como combinado previamente com meu guia, seguimos com a corda sempre voltada para o lado do precipício e o piolet para o lado da montanha, servindo de apoio e ancoragem a cada passo. A orientação era clara: foco total na segurança e na técnica  especialmente em condições como as que encontramos.
A subida estava pesada e exigente. A neve caía com força constante, cobrindo tudo: capacete, mochila, jaqueta de pluma e até meu rosto estavam tomados por uma fina camada branca. A visibilidade era limitada e o vento aumentava a sensação de isolamento. Apesar disso, não sentia frio. Pelo contrário o isolamento térmico das roupas funcionava tão bem que, em alguns momentos, cheguei a suar de tanto calor acumulado sob as camadas.
O avanço era lento, técnico e exigia muita paciência e resistência mental. O terreno coberto de neve fofa tornava os passos mais pesados, e a inclinação aumentava gradativamente. Em certos trechos, a progressão era feita de lado, cravando os crampons com cuidado e usando o piolet como ponto de equilíbrio. Cada passo era um pequeno desafio e, ao mesmo tempo, um avanço em direção ao cume.

Eu estava bem preparado tanto fisicamente quanto mentalmente. Mesmo antes de saber a data exata em que subiria o Huayna Potosí, já vinha me preparando há anos. Era um sonho antigo, algo que eu carregava comigo como um objetivo pessoal. Mas, sinceramente, nada poderia ter me preparado totalmente para aquele momento.
Enquanto subia, sentia minha mente firme, decidida, determinada a alcançar o cume. Mas meu corpo contava outra história. A exaustão foi tomando conta com o passar das horas. A cada trecho mais inclinado, a cada passo afundando na neve fofa, a resistência ia embora. Em vários momentos, precisei parar, me jogar na neve por alguns minutos, tentando recuperar o fôlego, aliviar o peso nas pernas e reorganizar os pensamentos.
Foram pelo menos cinco vezes que pensei e até cheguei a dizer que iria desistir. Meu corpo pedia desesperadamente para voltar, para parar com aquilo. Mas a mente sussurrava: "continua, vai devagar, mas não desiste". Era como uma batalha silenciosa entre razão e instinto, entre vontade e limite físico.

E foi assim, passo após passo, luta após luta, que continuei subindo.

Em determinado momento da subida, algo começou a mudar. O corpo, que antes parecia no limite, começou a responder um pouco melhor. A respiração ficou mais ritmada, os passos fluíam com mais naturalidade, e a mente, antes travando uma batalha interna, começou a acreditar de verdade que o cume era possível. A cada parada, eu aproveitava para tomar um gole de mate de coca quente da garrafa térmica, o que ajudava a me aquecer e dava um leve impulso de energia para continuar.
Já próximos do cume, mesmo ainda no escuro, ouvi gritos ao longe: “Cumbreee”. Eram de outros grupos que haviam chegado antes, acompanhados por agências. Aquele grito ecoando no silêncio da montanha foi como um combustível extra. Era a confirmação de que o fim da jornada estava próximo.
As últimas subidas são bem inclinadas e estreitas, exigindo concentração total. Já havia pessoas descendo, o que tornava o espaço ainda mais limitado, mas fui subindo com calma, passo a passo, com confiança. Naquele trecho, tive a convicção de que chegaria ao cume. A ansiedade foi dando lugar a uma paz estranha como se tudo estivesse finalmente se encaixando.
Por volta das 7h da manhã, com o céu começando a clarear, o vento soprando forte e uma névoa espessa cobrindo boa parte da paisagem, cheguei ao ponto mais alto: 6.088 metros de altitude. Ali estava o meu primeiro seis mil, e a felicidade foi simplesmente indescritível. As lágrimas escorreram pelo rosto coberto de neve não de tristeza, nem de dor, mas de realização pura.
Sentei na neve, em silêncio, e fiquei apenas olhando para o horizonte, tentando absorver tudo. Pensei em tudo que foi necessário para chegar ali, em quantas vezes quase desisti, em quantas vezes o corpo pediu para parar. Mas naquele momento, soube com toda certeza: valeu cada passo, cada dor, cada dúvida. Valeu não ter desistido.



“Cume!” Gritei com o coração explodindo de felicidade. Estava muito feliz, realizado e profundamente grato por ter chegado até ali com saúde, força e mente firme. Estava em um lugar incrível, no ponto mais alto do Huayna Potosí, a 6.088 metros de altitude. Pena que o tempo não colaborou: o céu estava fechado, a neblina cobria tudo, e não pude apreciar os famosos 360 graus de vista da Cordilheira Real. Mas isso não tirou em nada o brilho do momento.
Pelo contrário, o desafio foi ainda maior do que o esperado, com a neve fofa tornando a ascensão mais dura e técnica. Justamente por isso, a sensação de conquista foi ainda mais intensa. Ficar ali, no topo, em silêncio, olhando para o vazio branco ao redor, era como estar entre dois mundos: o da realidade e o do sonho que finalmente se realizava.
Depois de um tempo no cume, começamos a descida com o coração leve, tranquilos e com a missão cumprida. A neve ainda exigia atenção, mas agora o corpo já parecia mais leve, guiado pela sensação de dever alcançado. À medida que descíamos, o tempo começou a abrir, revelando partes da montanha e o visual que tínhamos deixado para trás na madrugada escura.
Foi aí que percebi algo marcante: as pegadas deixadas na neve o rastro da nossa jornada de horas agora visíveis sob o céu que se abria. Olhar para aquilo me deu uma sensação profunda de humildade. No meio daquele glaciar imenso e silencioso, percebi o quão pequenos somos diante da natureza… e, ao mesmo tempo, o quanto somos capazes quando não desistimos.



Foram quase seis horas de ascensão nada fácil. Cada passo exigiu esforço, concentração e superação. Mas, ao final, tudo se mostrou profundamente recompensador. A descida começou com uma energia diferente: o corpo ainda cansado, sim, mas o coração leve e a mente preenchida pela conquista.
O clima, que na madrugada era carregado e fechado, agora começava a se transformar. O visual ao redor estava incrível cordilheiras cobertas de neve, o glaciar imenso sob os nossos pés e o sol finalmente começando a aparecer, tingindo a montanha com tons dourados. Eu só conseguia admirar em silêncio, absorvendo cada segundo daquele cenário.
Em um trecho mais plano da descida, encontramos um ponto onde o sol batia suavemente, aquecendo o rosto e quebrando o frio cortante da altitude. Sentei na neve, respirei fundo e aproveitei aquele momento para descansar. Ficamos ali alguns minutos, recarregando as energias e comendo algo simples, mas essencial o corpo já estava há horas em atividade intensa, e cada gole de água e mordida parecia renovar um pouco da força que restava.


Após uma boa descida constante, finalmente deixamos para trás o trecho mais técnico e chegamos ao fim do glaciar. Retiramos os crampons e seguimos por mais um trecho até alcançar novamente o abrigo Las Rocas. O corpo já sentia o desgaste, mas o alívio de estar de volta era evidente.
Lá, celebramos com uma Coca-Cola gelada simples, mas valiosa. Quem já esteve em altitude sabe: coca é quase um combustível emocional, traz uma energia inesperada e renova o ânimo de um jeito único. Aproveitamos também para comer algo, descansar por alguns minutos e organizar os equipamentos. Tudo foi guardado na mochila cargueira, e logo iniciamos a descida final até a base, onde o carro nos esperava.
O caminho estava todo coberto de neve, levemente escorregadio em alguns trechos, mas o trajeto fluiu bem. Com passos firmes, fomos perdendo altitude rapidamente e, pouco tempo depois, chegamos ao carro. A sensação naquele momento era indescritível: dever cumprido, corpo cansado, coração leve e alma em paz.
Estava voltando para La Paz bem, com saúde, e com o cume conquistado. Um sonho antigo realizado, uma batalha vencida entre mente e corpo, e uma lembrança eterna cravada em mim. 

O Huayna Potosí não é apenas uma montanha de 6.088 metros é uma jornada de superação, entrega e autoconhecimento.

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