Imagine um lugar onde o céu parece mais próximo, onde montanhas nevadas se erguem imponentes no horizonte e a cultura andina pulsa em cada detalhe do cotidiano. Esse é o Parque Nacional Sajama, o primeiro parque nacional da Bolívia, lar de paisagens surreais, águas termais, florestas de queñua e uma fauna típica do altiplano. No coração desse cenário está a Vila Sajama, uma pequena comunidade aymara que serve de porta de entrada para quem deseja explorar a região e se aventurar pelas montanhas que a cercam.
Além do majestoso Nevado Sajama, a montanha mais alta do país, o parque abriga outros gigantes impressionantes: os vulcões Parinacota e Pomarape, conhecidos como “gêmeos”, que formam uma paisagem icônica na fronteira com o Chile, e o Acotango, um cume de mais de seis mil metros considerado relativamente acessível para montanhistas experientes e que tive a oportunidade de escalar, vivendo uma experiência inesquecível.
Curiosidades
1. É o Parque Nacional mais antigo da Bolívia
Criado em 1939, o Parque Nacional Sajama foi o primeiro parque nacional do país, com o objetivo de proteger tanto a paisagem natural quanto as espécies nativas, como a vicunha.
2. Possui as águas termais mais altas do mundo
Dentro do parque, você encontra águas termais naturais localizadas a mais de 4.200 metros de altitude. Elas são aquecidas por atividade vulcânica e são um verdadeiro oásis em meio ao frio do altiplano.
3. Florestas de queñua: as mais altas do planeta
A queñua (Polylepis spp.) é uma árvore nativa dos Andes que cresce em altitudes extremas. As florestas de queñua no Sajama estão entre as mais altas do mundo, chegando a mais de 5.000 metros de altitude.
4. Vicunhas e lhamas convivem em liberdade
O parque abriga uma rica fauna andina, incluindo vicunhas, lhamas, alpacas, pumas, raposas andinas e até o raro nandu-de-darwin (suri), uma ave corredora semelhante ao avestruz.
5. A cultura Aymara é viva e atuante
A Vila Sajama é habitada por comunidades aymaras que mantêm tradições ancestrais. A espiritualidade andina está presente em ritos, danças, artesanato e arquitetura, como igrejas coloniais e chullpas (torres funerárias pré-colombianas).
6. É um destino pouco explorado e preservado
Apesar de sua beleza estonteante, o parque ainda é pouco visitado, o que contribui para a sua preservação natural e cultural. Muitos viajantes dizem sentir que estão em um "mundo perdido" ao explorar a região.
7. É uma das regiões mais altas habitadas da Terra
A Vila Sajama e outras comunidades do entorno estão localizadas a altitudes superiores a 4.200 metros, o que faz delas algumas das mais altas áreas permanentemente habitadas do planeta.
8. O Nevado Sajama é um vulcão extinto
Com 6.542 metros de altitude, o Nevado Sajama é a montanha mais alta da Bolívia e é um vulcão extinto coberto por geleiras. Escalar esse gigante requer aclimatação e experiência em alta montanha.
9. O gelo do Sajama guarda informações sobre o passado
Pesquisadores perfuraram o gelo das geleiras do Sajama para estudar mudanças climáticas. As amostras revelam dados sobre o clima da Terra de milhares de anos atrás.
10. Um recorde olímpico inusitado
Em 2001, uma equipe de corredores bolivianos e internacionais correu uma maratona no cume do Nevado Sajama, considerada uma das mais altas já realizadas, como parte de um projeto de conscientização ambiental.

Apenas dois dias após alcançar o cume do meu primeiro seis mil, o Huayna Potosí, segui viagem rumo a Oruro, no altiplano boliviano. Depois de uma boa aclimatação passando por lugares como Chacaltaya, Laguna Esmeralda (na base do Charquini) e o Pico Áustria, me sentia pronto para um novo desafio. Meu destino era a remota e encantadora Vila Sajama, porta de entrada para o Parque Nacional Sajama, onde me preparei para encarar o meu segundo cume acima dos 6.000 metros: o vulcão Acotango.
Roteiro
Dia 1 – Saída de La Paz e chegada à Vila Sajama
Nosso objetivo é sair de La Paz por volta das 12h30, em direção ao Parque Nacional Sajama, uma viagem de aproximadamente 5 horas de carro. O destino final do dia é a Vila Sajama, base para explorar a região e encarar o vulcão Acotango.
Nos hospedaremos no Hostel Parinacota, um refúgio simples, mas aconchegante, ideal para descansar e se preparar para o ataque ao cume.
Dia 2 – Ataque ao cume do Acotango (6.052 m)
Na madrugada do segundo dia, por volta da 1h da manhã, partiremos de carro em direção à base do vulcão Acotango. A partir dali, iniciaremos a ascensão ao cume, que exige resistência, aclimatação prévia e um bom ritmo na altitude extrema.
A meta é conquistar o topo do nosso segundo seis mil com segurança e aproveitar cada momento dessa experiência inesquecível no coração do altiplano boliviano.
1º Dia La Paz para Oruro Vila Sajama
Saímos de La Paz, na região de Calacoto, por volta das 12h30. Foram cerca de cinco horas de viagem até Oruro, rumo ao Parque Nacional de Sajama. Durante o trajeto, pela estrada que parecia se estender infinitamente em linha reta, começamos a avistar o imponente Sajama a montanha mais alta da Bolívia. A cada quilômetro percorrido, sentíamos que nos aproximávamos mais e mais daquela imensa presença no horizonte, como se a própria estrada nos conduzisse até ele.
Após uma longa jornada, chegamos à portaria do Parque Nacional de Sajama por volta das 17h. Lá compramos os ingressos de entrada 100 bolivianos por pessoa para estrangeiros, válidos por até quatro dias dentro do parque.
Após passarmos pela portaria, seguimos pela estrada principal do parque uma imensidão que, aos meus olhos leigos, parecia um deserto. A paisagem era dominada por uma vegetação baixa e rasteira, e o vento soprava forte, constante.
Enquanto avançávamos, tanto do lado direito quanto do esquerdo da estrada, víamos inúmeros grupos de lhamas e alpacas pastando tranquilamente.
Conversa vai, conversa vem, tentei adivinhar com meu amigo boliviano, Mark, qual era uma alpaca e qual era uma lhama com direito a muitas risadas, claro. Ele me explicou pacientemente várias vezes: as lhamas são maiores e mais robustas, enquanto as alpacas são menores e têm uma aparência mais fofa e delicada.
Outro detalhe e talvez o mais impressionante de todos era o cenário ao nosso redor: estávamos completamente cercados por montanhas e vulcões imponentes, muitos deles com seus picos cobertos de neve. À nossa direita, isolado e majestoso, erguia-se o Sajama, o ponto mais alto de todo o território boliviano. À esquerda, os "gêmeos" Pomerape e Parinacota se destacavam lado a lado, com formas simétricas e igualmente impressionantes. Um pouco mais atrás, o vulcão Acotango também se fazia presente, junto a outros nevados que se estendiam até atravessar a fronteira com o Chile, compondo uma paisagem de tirar o fôlego.
Cerca de 20 minutos após passarmos pela portaria do parque, começamos a avistar um pequeno vilarejo algo totalmente novo para mim, e ao mesmo tempo incrível. Era a famosa Vila Sajama, um povoado isolado localizado dentro do parque. Apesar de seu tamanho modesto, a vila contava com casas simples, algumas acomodações como hostels, além de pequenos comércios que vendiam alimentos e itens básicos.
Seguimos direto para o Hostel Parinacota, já sentindo o frio aumentar à medida que o sol começava a se pôr, tingindo o céu com tons alaranjados atrás das montanhas gêmeas. Encostamos o carro e fomos direto para nossa acomodação: um quarto privativo para duas pessoas. O hostel também oferecia quartos de casal e opções individuais, acomodando diferentes tipos de viajantes que se aventuram por ali.

Ao chegarmos, separamos nossos equipamentos de alta montanha e deixamos tudo preparado para a madrugada, quando partiríamos rumo ao cume. Às 20h foi servida a janta no hostel que, aliás, oferece uma estrutura completa, com café da manhã, almoço e jantar inclusos. E não é qualquer refeição: a comida é farta, saborosa e perfeita para quem está se preparando para um desafio como o nosso.
Para abrir o apetite, foi servida uma sopa acompanhada de pão. Confesso que normalmente não sou fã de sopa, mas essa estava tão boa que não sobrou nada no prato. Em seguida, veio um prato generoso de macarronada com carne moída uma das minhas comidas preferidas e estava realmente delicioso. Para fechar, uma sobremesa simples, mas ótima: pêssego em calda.
Satisfeito e de barriga cheia, tomei um pouco de mate de coca para ajudar na digestão e me preparar para a altitude. Logo fui dormir, pois às 1h da manhã já estaria de pé para começar a caminhada rumo ao Acotango.
2º Dia Vila Sajama para o Topo de Acotango e Volta para La Paz.
À 1h da manhã o despertador tocou. Estava muito frio, e o cobertor de lã de alpaca era tão quente e aconchegante que, por um instante, confesso que quis ficar ali e dormir mais. Mas meu objetivo falava mais alto: eu queria aquele cume.
Levantei e comecei a me preparar, vestindo as mesmas camadas que usei na ascensão do Huayna Potosí. No entanto, uma lembrança nada agradável daquele ataque ao cume ainda me acompanhava uma bolha dolorida no calcanhar, causada pela bota dupla. Eu tinha colocado alguns curativos (band-aid), mas a dor persistia, praticamente inalterada. Ainda assim, eu sabia que esse tipo de desconforto fazia parte da montanha. Nunca seria fácil. Então fui com dor mesmo.
Desci até o refeitório do hostel, onde tomei um café da manhã simples: mate de coca quente e algumas bolachas doces para dar energia. Logo em seguida, partimos em direção à base do Acotango, a cerca de uma hora de distância dali.
O céu estava incrivelmente estrelado uma daquelas noites que só a alta montanha pode oferecer. A temperatura era extremamente baixa, possivelmente em torno de -15 °C, com ventos que ultrapassavam os 50 km/h.
Chegamos à base do Acotango por volta das 3h da manhã e iniciamos a trilha sob o frio intenso e o silêncio cortado apenas pelo som do vento. Desta vez, não foi necessário levar piolet nem utilizar corda ou cadeirinha. No entanto, os crampons e o capacete eram indispensáveis.
Logo no início já começamos a subir, caminhando por um terreno solto, semelhante a areia vulcânica. Depois de cerca de 20 minutos de ascensão, fizemos uma breve pausa para ajustar os crampons nas botas duplas dali em diante, teríamos pela frente o glaciar.
Seguíamos subindo devagar, em um ritmo constante, fazendo pequenas paradas para beber água e tomar um pouco de mate de coca, ajudando o corpo a lidar com o frio e a altitude. Aos poucos, o céu começou a clarear, anunciando o amanhecer.
Eu não conseguia deixar de olhar para trás a cada pausa o horizonte começava a se tingir de tons alaranjados intensos, um espetáculo que contrastava bastante com a experiência no Huayna. O tempo estava completamente aberto, o que tornava tudo ainda mais admirável.
Do alto, tínhamos um visual de 360 graus simplesmente indescritível: ao nosso redor, se erguiam o Parinacota, o Pomerape, o imponente Sajama e, ao fundo, diversos vulcões do lado chileno, inclusive um conhecido por ser ativo. A paisagem era de tirar o fôlego imensa, silenciosa e poderosa.

Em determinado ponto da subida, precisávamos atravessar um trecho de terreno composto por areia vulcânica solta, onde o uso dos crampons não era necessário na verdade, até atrapalharia. Então, fizemos uma pausa para retirá-los e seguimos a ascensão com mais facilidade por esse solo instável, mas sem gelo.
Mais adiante, já próximos da parte final da subida, o terreno voltava a apresentar trechos gelados e escorregadios. Fizemos outra parada para colocar novamente os crampons, preparando-nos para os metros finais até o cume.
Já eram cerca de 6h50 quando fizemos uma última pausa para colocar novamente os crampons. Estávamos prestes a enfrentar o trecho final rumo ao cume. O cansaço já era evidente, mas eu sentia que ainda tinha energia suficiente para continuar o topo estava próximo, e a motivação só aumentava.
Nesse momento, encontramos alguns brasileiros conhecidos que estavam um pouco à nossa frente até então, eram os únicos outros montanhistas na montanha. Depois de ajustar os crampons, eu e meu amigo Mark seguimos firmes, passo a passo, com o cume cada vez mais perto diante de nós.
Seguíamos subindo, agora muito próximos do cume. Faltava pouco, mas os últimos metros exigiam ainda mais esforço: as subidas eram bastante íngremes, quase verticais em alguns trechos. Avançávamos em zigue-zague, uma técnica essencial para poupar energia em terrenos tão inclinados. O vento continuava forte, cortante, como se testasse nossa determinação até o fim.
Exatamente uma hora após nossa última parada, às 7h50, finalmente alcançamos o cume. O céu estava completamente aberto, revelando um visual de 360 graus simplesmente indescritível. Estávamos sozinhos no topo do vulcão Acotango, a 6.052 metros de altitude meu segundo cume acima dos 6 mil metros. Um momento de silêncio, conquista e gratidão, com muito vento e um sentimento impossível de explicar em palavras.


Ficamos alguns minutos no cume, aproveitando cada instante daquele momento especial. Admiramos a paisagem, tiramos fotos e registramos tudo o que podíamos era o tipo de conquista que precisava ser celebrada. Mas, por causa do vento forte e constante, logo iniciamos a descida, leves, com a sensação de missão cumprida e o coração em paz.
Diferente da subida, a descida foi surpreendentemente tranquila. Descemos em um ritmo rápido, aproveitando cada olhar para aquele visual incansável que nos cercava um verdadeiro privilégio. Por volta das 9h30, já estávamos de volta ao carro, ainda processando tudo o que havíamos vivido naquela manhã inesquecível.

Após o almoço no acolhedor Hostel Parinacota, no Parque Nacional de Sajama, fomos comemorar da melhor forma possível: relaxando nas águas termais com vista direta para o majestoso Sajama. A paisagem era de tirar o fôlego montanhas nevadas ao fundo, céu limpo, e uma paz difícil de descrever.
Com uma cerveja Huari artesanal e local nas mãos saborosa e refrescante aproveitamos cada segundo naquele cenário dos sonhos. A água era surpreendentemente quente e confortável, não dava vontade de sair. Ali, naquele momento, percebi: eu estava exatamente onde queria estar.
Feliz por mais um objetivo conquistado, após o cume do Acotango (6.052 m), só conseguia pensar em voltar para essa região e escalar as outras montanhas ao redor. O sonho de alcançar 10 ou mais cumes acima dos 6 mil metros está cada vez mais próximo e mais real.
Voltamos para La Paz com o coração leve, cheios de histórias, momentos inesquecíveis e aquela sensação única de missão cumprida.
TOPPP DENTÃO
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