Aproximadamente um ano após minhas ascensões ao Huayna Potosí e ao Acotango, estou de volta à Bolívia. Quem diria que, depois daquelas primeiras experiências nas grandes montanhas dos Andes, eu estaria novamente aqui, pronto para enfrentar um desafio ainda maior?
Desta vez, a missão é especial: depois de já ter conquistado minha primeira montanha acima dos 6.000 metros de altitude, estou partindo em busca da terceira. Um desafio significativamente mais exigente do que os anteriores, que me levará novamente ao Parque Nacional Sajama, em Oruro, diante de uma das montanhas mais impressionantes da região: o Nevado Parinacota.
Mais do que uma nova ascensão, essa montanha representava mais um passo em um projeto que começou quase sem pretensão, mas que aos poucos foi ganhando forma: desafiar meus próprios limites e descobrir até onde consigo chegar nas grandes altitudes dos Andes.
Passei um ano inteiro me preparando para esse desafio e pensando nele praticamente todos os dias. Cada treino na academia, cada montanha que enfrentei na Serra da Mantiqueira, no Brasil, e cada minuto de cardio faziam parte dessa preparação. Eu sabia que não bastava preparar apenas o corpo. A mente também precisava estar pronta.
Durante aquele ano, muitas vezes me peguei mentalizando o momento da subida e repetindo para mim mesmo que, mesmo quando estivesse cansado, mesmo quando meu corpo estivesse esgotado e pedisse para parar, eu daria mais um passo.
Na altitude, as coisas são diferentes. Não importa o quanto você esteja preparado físico ou mentalmente: cada experiência acima dos 5.000 ou 6.000 metros é única. O seu corpo reage de uma maneira diferente, o ambiente impõe suas próprias regras e, naquele momento, você precisa ter muito claro na mente qual é o seu objetivo.
É preciso estar disposto a deixar tudo o que você tem naquela montanha.
E para mim, havia algo ainda maior por trás de tudo isso: era um sonho.
Eu sabia que não era fácil estar ali. Foram meses de preparação, planejamento, treinos e sacrifícios para chegar até aquele ponto. Por isso, carregava comigo a sensação de que aquela poderia ser a minha única oportunidade. Se eu tinha chegado até ali, precisava aproveitar cada segundo e dar tudo de mim.
Na minha cabeça, uma frase estava muito clara:
Não existe desistir.
Enquanto meu corpo ainda tivesse forças para dar mais um passo, eu continuaria.
O Planejamento de Aclimatação
Todo o meu cronograma na Bolívia foi pensado tendo um único objetivo principal: o Parinacota. Por isso, cada atividade dos dias anteriores tinha uma função importante: preparar o corpo e, principalmente, testar como eu reagiria à altitude antes do grande desafio.
A primeira etapa foi o trekking pelo Valle de las Ánimas, uma das paisagens mais impressionantes de La Paz. Foram mais de 10 quilômetros de caminhada, com uma subida considerável, justamente para começar a exigir do corpo em altitude.
No dia seguinte, o desafio aumentou. Fui para o Trekking Ventanani, que inicialmente seria uma etapa semelhante à aclimatação realizada no Valle de las Ánimas, mas com um objetivo ainda maior: ultrapassar os 5.000 metros de altitude.
Porém, as condições encontradas foram muito diferentes do que esperávamos.
Havia nevado intensamente e o percurso se tornou muito mais pesado do que o previsto. Em diversos trechos, caminhávamos sobre uma camada profunda de neve, chegando a aproximadamente 40 centímetros de profundidade. Além do esforço para avançar na neve fofa, encontramos diversos trechos inclinados e expostos, onde cada passo exigia muito cuidado.
O que deveria ser apenas mais uma etapa de aclimatação acabou se transformando em um dos trekkings mais exigentes de toda a preparação. A neve aumentava o esforço físico e, ao mesmo tempo, tornava o terreno muito mais técnico e perigoso.
A próxima etapa seria o Nevado Charquini, pela Face Norte. No entanto, novamente as condições climáticas mudaram nossos planos. Estava nevando tanto nos arredores de La Paz que a aproximação até a montanha se tornou inviável. Não fazia sentido colocar a equipe em uma situação de risco apenas para cumprir o cronograma.
Foi então que tivemos que descansar um dia e mudar o roteiro. Seguimos viagem para a Vila Sajama, em Oruro, onde finalmente estaríamos aos pés das montanhas que eram o verdadeiro objetivo daquela expedição.
Finalmente chegamos a Oruro e, depois, seguimos em direção à Vila Sajama. Até aquele momento, eu havia conseguido cumprir tudo o que estava planejado no cronograma de aclimatação. Porém, havia uma diferença importante em relação à minha viagem do ano anterior: dessa vez, eu já estava sentindo alguns sinais da altitude.
Estava um pouco enjoado, indisposto e não me sentia tão bem quanto gostaria. Sabia que aquilo poderia acontecer e, de certa forma, já havia me preparado mentalmente para essa possibilidade. Na altitude, não basta estar fisicamente preparado; é preciso saber lidar com as sensações que o corpo apresenta e entender que cada experiência pode ser diferente.
No caminho para Oruro, procurei fazer o possível para chegar nas melhores condições que conseguisse. Comprei alguns medicamentos que pretendia utilizar para tentar aliviar os sintomas, entre eles o famoso Sorochi, além de bastante mate de coca e folhas de coca, que fazem parte da cultura andina e são tradicionalmente utilizadas para ajudar a enfrentar os efeitos da altitude.
Ao chegar, minha prioridade passou a ser uma só: descansar o máximo possível.
Eu sabia que não estava me sentindo perfeitamente bem, mas também sabia por que estava ali. Depois de um ano inteiro de preparação, treinos e mentalização, eu não queria deixar que aquele mal-estar fosse suficiente para me tirar do meu objetivo.
Eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para estar pronto.
A partir daquele momento, era questão de respeitar o corpo, recuperar as energias e esperar pelo grande dia. O Parinacota estava ali, diante de nós, e eu sabia que, quando chegasse a hora de partir, teria que dar tudo de mim.
1º Chegada na Vila Sajama e preparação para o ataque ao Cume
Tivemos um dia inteiro de descanso na Vila Sajama. Estávamos acomodados no Hostal Parinacota, uma hospedagem bastante conhecida entre os montanhistas que chegam à vila em busca dos grandes vulcões da região.
Aquele dia tinha uma única função: descansar e recuperar o máximo de energia possível.
Fizemos todas as refeições normalmente café da manhã, almoço e jantar e, depois de cada uma delas, eu procurava voltar para a cama e dormir. Não havia muito o que fazer além disso. O grande esforço ainda estava por vir, e eu queria chegar à noite nas melhores condições possíveis.
Enquanto descansava, sabia que algumas horas depois começaria aquilo para o qual havia passado um ano inteiro me preparando.
O planejamento era acordar às 23h00, me arrumar, tomar um café forte e fazer os últimos preparativos antes da saída. Às 23h30, partiríamos de carro em direção ao Parinacota, subindo pela estrada até aproximadamente 5.100 metros de altitude, ponto onde iniciaríamos a aproximação e, posteriormente, a caminhada rumo ao cume.
O relógio corria, e cada hora de sono naquele dia seria importante.
A montanha já estava ali. O objetivo estava definido. Agora era descansar, esperar a noite chegar e estar pronto para dar o primeiro passo em direção ao cume.
Descansei o máximo que pude durante aquele dia. Tudo o que eu queria era recuperar energia para o que estava por vir. Mas havia um pequeno problema: na Vila Sajama faz muito frio.
Quando o relógio marcou 23h00 e o despertador tocou, confesso que tudo o que eu queria era continuar deitado.
A cama estava extremamente confortável e, debaixo daqueles cobertores de alpaca, estava muito quente. Do lado de fora, porém, o frio da noite do altiplano esperava por nós. Por alguns segundos, a vontade de continuar dormindo foi enorme.
Mas eu havia sonhado com aquele momento durante um ano inteiro.
Então levantei.
Comecei a me vestir ainda na cama, tentando aproveitar até os últimos minutos de calor. Coloquei a segunda pele, o fleece, o corta-vento e, por cima de tudo, a jaqueta de pluma de ganso. Aos poucos, estava pronto para enfrentar o frio que nos aguardava lá fora.
Desci para a sala do Hostal Parinacota e fiz uma última refeição antes da saída. Tomei um café forte para buscar um pouco mais de energia para aquela longa noite, acompanhado de mate de coca. Também enchi minha garrafa térmica com mate para levar durante a subida e poder beber ao longo da caminhada.
Tudo estava pronto.
Por volta das 23h30, saímos da Vila Sajama de carro em direção ao Parinacota. Enquanto avançávamos pela escuridão do altiplano, eu sabia que, depois de meses de preparação e de toda aquela viagem, finalmente havia chegado o momento pelo qual eu estava esperando.
À 00h00, chegamos ao ponto onde iniciaríamos a caminhada, a aproximadamente 5.100 metros de altitude.
Descemos do carro.
O frio era intenso.
À nossa frente estava o Parinacota, praticamente invisível na escuridão da noite. A partir daquele momento, não havia mais cama quente, cobertores de alpaca ou conforto.
Só havia a montanha.
E era hora de começar a subir.

2º Iniciando a subida do Vulcão Parinacota
Iniciamos a subida por volta da meia-noite. Estava muito frio, mas, enquanto caminhávamos, a temperatura era suportável. Tivemos, porém, que começar um pouco abaixo dos 5.100 metros de altitude previstos inicialmente. A quantidade de neve no caminho havia aumentado tanto que o carro não conseguia avançar mais. Normalmente, o ataque ao Parinacota começa por volta dos 5.100 metros, próximo a um abrigo de montanha localizado aos pés do vulcão, mas naquela noite tivemos que ganhar alguns metros a mais com as próprias pernas.
Começamos a caminhada mantendo um ritmo constante, com passos lentos e tranquilos, mas sem deixar o ritmo cair. O terreno inicialmente era formado por areia vulcânica, que fazia com que, em alguns pontos, nossos pés afundassem um pouco a cada passo. Era um terreno relativamente simples, mas que exigia atenção e tornava a caminhada mais desgastante.
O céu estava completamente estrelado e proporcionava uma paisagem incrível. Em meio à escuridão do altiplano, as estrelas pareciam ainda mais próximas. Mesmo assim, era preciso controlar a vontade de ficar olhando para cima. Na altitude, manter os olhos voltados para o caminho e concentrar-se nos próximos passos fazia parte da estratégia. Naquele momento, meu foco era simples: olhar para frente, controlar a respiração e continuar avançando.
Mantínhamos um bom ritmo e fazíamos pequenas paradas aproximadamente a cada 15 minutos. Aproveitávamos esses momentos para beber água, tomar um pouco de mate de coca e comer alguma coisa. Entre os alimentos que levei, havia um chocolate boliviano pelo qual me apaixonei durante a viagem: o Momento, uma espécie de versão boliviana do nosso Prestígio. Na montanha, ele acabou se tornando um grande aliado. Cada pedaço proporcionava aquele pequeno pico de energia que fazia diferença quando o corpo começava a sentir o esforço.
Seguimos assim durante aproximadamente quatro horas, avançando lentamente pela escuridão, até finalmente chegarmos ao início do glaciar.
Ali, a caminhada mudaria completamente.
Precisávamos parar para colocar os crampons nas botas duplas antes de entrar no trecho de gelo e neve. O problema era que o vento estava muito forte e o frio era intenso. Para colocar os crampons, precisei tirar as luvas por alguns instantes e trabalhar com as mãos expostas.
Foram poucos minutos, mas pareceram uma eternidade.
O frio atingiu minhas mãos de uma maneira absurda. A sensação era de que meus dedos estavam congelando e que eu poderia perder as mãos se demorasse muito mais. Assim que terminamos de colocar os crampons, voltamos a caminhar para tentar recuperar o calor.
Mesmo depois de retomar a subida, demorou cerca de 20 minutos para minhas mãos voltarem ao normal.
A partir dali, porém, começava uma nova etapa da ascensão. Havíamos deixado para trás a areia vulcânica e entrávamos definitivamente no ambiente glacial do Parinacota. O terreno, o frio e a altitude começariam a cobrar ainda mais de nós e ainda tínhamos muitos metros pela frente até o cume.

Por volta das 5h10 da manhã, enquanto continuávamos avançando pelo glaciar, o céu começou lentamente a ganhar um tom alaranjado. A noite estava chegando ao fim e os primeiros sinais do amanhecer começaram a aparecer no horizonte. Foi impossível não admirar aquela paisagem. Enquanto caminhávamos, o sol começava a surgir por trás do Nevado Sajama, a montanha mais alta da Bolívia. Ver aquela montanha sendo iluminada pelos primeiros raios do dia foi um daqueles momentos que ficam guardados na memória. O Sajama também representa um sonho pessoal: um dia ainda quero estar naquela montanha, tentando alcançar o seu cume.
Mas não havia muito tempo para contemplação. O glaciar do Parinacota estava ficando cada vez mais complicado. Diferentemente de uma trilha tradicional, ali praticamente não existia um caminho definido. A superfície estava coberta por penitentes, formações de neve ou gelo endurecido que se desenvolvem como lâminas altas, finas e pontiagudas. Caminhar por aquele terreno era extremamente irregular e exigia muita atenção.
A cada passo era preciso escolher cuidadosamente onde colocar o pé. Em alguns momentos, eu pisava sobre uma dessas formações e ela suportava o peso. Em outros, a lâmina de neve simplesmente quebrava, fazendo o pé virar e afundar entre as formações. Era um terreno muito instável e nada constante, o que tornava impossível manter um ritmo perfeito.
Subíamos fazendo movimentos de zigue-zague, procurando os melhores espaços entre os penitentes e tentando economizar energia. Naquela altitude, qualquer movimento desnecessário começava a pesar. Depois de horas de caminhada pelo glaciar, por volta das 6h20 da manhã, finalmente alcançamos os 6.000 metros de altitude.
Olhei para o altímetro e veio aquela sensação de que estávamos muito próximos. Faltavam apenas 348 metros verticais para o cume. Mas, na alta montanha, não se pode olhar apenas para a distância que falta. Esses 348 metros, a mais de 6.000 metros de altitude, poderiam representar mais três ou até quatro horas de esforço.
E havia uma razão para tudo ficar tão lento. Aos 6.000 metros, o corpo já está em um ambiente extremamente hostil. A pressão atmosférica é muito menor do que ao nível do mar e a pressão parcial de oxigênio disponível é aproximadamente 47% da encontrada ao nível do mar. Na prática, cada passo passa a exigir muito mais.
A respiração fica pesada, os movimentos ficam mais lentos e até tarefas simples começam a exigir concentração. O corpo parece estar trabalhando no limite, enquanto a montanha continua exatamente igual.
O cume estava a apenas 348 metros acima de nós.
Parecia perto.
Mas naquele momento eu começava a entender que aqueles últimos metros seriam, provavelmente, os mais difíceis de toda a subida.

Continuávamos a subida, mas agora as paradas eram cada vez mais frequentes. Precisávamos parar para recuperar o fôlego, respirar e conseguir continuar avançando. Sinceramente, em muitos momentos, já acima dos 6.000 metros de altitude, meu corpo pedia para parar. Eu sentia o desgaste de tudo aquilo e parecia que cada passo exigia uma quantidade enorme de energia.
Mas havia uma coisa que eu carregava comigo desde o início daquela preparação. Durante todo aquele ano, eu havia mentalizado que, mesmo quando estivesse completamente esgotado, daria mais um passo. E foi exatamente isso que comecei a fazer. Um passo de cada vez.
Em nenhum momento passou pela minha cabeça desistir. Pelo contrário. Mesmo cansado, mesmo sentindo que a montanha estava sugando tudo o que eu tinha, eu sabia que chegaria ao topo. Era apenas uma questão de tempo.
Olhava para cima e ainda parecia existir uma imensidão de glaciar pela frente. Mas parei de pensar na distância que faltava e comecei a pensar apenas no próximo passo. Depois mais um. E mais um. De pouco em pouco, fomos avançando.
Em alguns momentos, eu simplesmente me deitava sobre a neve para recuperar a respiração. Aproveitava aqueles minutos para tomar um pouco de mate de coca e mastigar algumas folhas de coca antes de me levantar novamente e continuar. Não era uma subida rápida. Era uma batalha de paciência, resistência e determinação.
E assim fomos levando.
Até que, por volta das 9h51 da manhã, depois de horas de caminhada, finalmente chegamos ao cume do Vulcão Parinacota, a 6.348 metros de altitude.
O sentimento naquele momento é difícil de explicar. A paisagem era simplesmente incrível, mas, para mim, havia algo ainda maior acontecendo. Eu acabava de concluir, naquele momento, o desafio que considero até então o mais difícil da minha vida.
O Parinacota não é uma montanha extremamente técnica, mas é uma montanha longa. Ela vai te perguntando durante todo o caminho se você realmente tem certeza de que quer chegar ao topo. Ela vai te cansando, te desgastando e, pouco a pouco, tirando suas forças. É como se a montanha testasse sua determinação a cada metro conquistado.
E talvez seja justamente isso que torne sua conquista tão especial.
No cume, fiquei extremamente feliz e realizado. Mas minha felicidade não vinha apenas de estar no ponto mais alto da montanha. Vinha de todo o processo. De cada treino durante aquele ano, de cada montanha que subi no Brasil, de cada quilômetro de cardio, de cada planejamento, de cada dificuldade encontrada durante a viagem e de cada momento em que meu corpo pediu para parar, mas eu escolhi continuar.
Estar ali significava muito mais do que chegar ao topo.
Significava ter vivido todo o caminho até ele.
Mesmo não estando nas melhores condições, mesmo sentindo o corpo completamente desgastado e mesmo tendo enfrentado uma montanha muito mais exigente do que eu imaginava, eu consegui desfrutar de cada momento daquela experiência.
Naquele instante, olhando tudo ao redor dos 6.348 metros, eu percebi que a conquista não estava apenas no cume.
A conquista estava em todos os passos que me levaram até ele.


Naquele momento, eu estava diante de algo que, anos atrás, jamais imaginaria alcançar: era a minha terceira montanha acima dos 6.000 metros de altitude.
Quando eu era adolescente, assistia ao Canal OFF e ficava fascinado vendo aquelas pessoas escalando montanhas nevadas pelo mundo. Eu sonhava em um dia viver algo parecido, mas, sinceramente, nem nos meus maiores sonhos imaginava que chegaria tão longe. Naquela época, eu não imaginava sequer que um dia escalaria uma montanha nevada, muito menos que chegaria ao ponto de conquistar uma, depois outra e, agora, alcançar a marca de três montanhas acima dos 6.000 metros.
E aquilo estava realmente acontecendo.
Foi um sentimento enorme de realização e felicidade. Mais do que um número, aquelas três montanhas representavam toda a trajetória que me trouxe até ali, desde o primeiro sonho até aquele momento no cume do Parinacota.
E enquanto eu tiver saúde e condições para continuar, quero chegar cada vez mais alto. Meu próximo grande objetivo é alcançar a marca de 10 montanhas acima dos 6.000 metros de altitude. Sei que ainda existe um longo caminho pela frente, muitas montanhas, muitos desafios e provavelmente momentos ainda mais difíceis, mas agora sei que é possível.
No cume do Parinacota, porém, não havia pressa. Depois de toda aquela jornada, fiquei por quase uma hora simplesmente desfrutando daquele momento. Observei aquele visual incrível, tirei várias fotos para guardar como recordação e fiquei contemplando as montanhas ao redor.
O céu estava perfeito, completamente aberto, e os nevados formavam uma paisagem que parecia irreal. Por alguns minutos, eu simplesmente fiquei ali, olhando tudo aquilo e sonhando acordado.
Talvez aquela seja uma das melhores sensações que uma montanha pode proporcionar: depois de passar horas sendo testado físico e mentalmente, finalmente poder parar, respirar e perceber onde você conseguiu chegar.
Eu estava a 6.348 metros de altitude, cercado pelos grandes nevados dos Andes, vivendo um sonho que começou muitos anos antes, ainda na adolescência, diante da televisão.
E naquele momento eu só conseguia pensar em uma coisa: eu realmente cheguei até aqui.

Cerca de uma hora depois de chegarmos ao cume, chegou o momento de comemorar. Abrimos uma Huari para brindar à conquista e, depois de registrar aquele momento, começamos a descida.
E foi aí que descobri que, no Parinacota, descer seria quase tão difícil quanto subir.
Nas montanhas que costumo fazer no Brasil, depois de uma longa subida geralmente existe aquela sensação de alívio quando começa a descida. O corpo já está cansado, mas a caminhada costuma fluir com mais facilidade. No Parinacota foi completamente diferente. Por causa dos penitentes, a descida pelo glaciar era lenta, desconfortável e exigia atenção redobrada.
Era preciso escolher cuidadosamente cada lugar onde colocar os pés. Em determinados pontos, a neve cedia e o pé afundava, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio e acabasse caindo. E como a parede do Parinacota é bastante inclinada, qualquer erro de pisada exigia ainda mais cuidado.
Eu já estava muito cansado, e aquilo começava a me irritar um pouco. O que mais incomodava era perceber que a caminhada simplesmente não fluía. Eu olhava para baixo e ainda parecia faltar uma imensidão para chegar ao final, mas não havia como acelerar. Era preciso respeitar o terreno e descer lentamente, fazendo zigue-zague entre os penitentes.
De vez em quando acontecia alguma queda, o que aumentava ainda mais a irritação e o desgaste. Naquela altitude, qualquer movimento mais brusco parecia consumir uma quantidade enorme de energia. Era como se cada esforço desnecessário cobrasse seu preço imediatamente.
Pouco a pouco fomos descendo.
Meu corpo já começava a apresentar sinais claros de desidratação. Mesmo bebendo água durante o caminho, em muitos momentos minha boca secava rapidamente. Os passos já não respondiam da mesma maneira e eu sentia que minhas reservas de energia estavam chegando ao limite.
Depois de muito tempo, finalmente chegamos ao final do glaciar.
Foi um grande alívio poder parar e retirar os crampons. A partir dali, o terreno mudava novamente. Teríamos uma longa descida pela areia vulcânica, repleta de pedras e trechos bastante irregulares.
Curiosamente, essa parte da descida acabou sendo um pouco mais divertida. Em vez de caminhar passo a passo sobre a areia solta, muitas vezes descíamos praticamente escorregando, como se estivéssemos surfando pela montanha. Era uma maneira de ganhar alguns metros com menos esforço e, depois de tantas horas, qualquer facilidade era bem-vinda.
Continuamos descendo lentamente, já completamente exaustos, até que, por volta das 17h30, finalmente avistamos o carro.
Chegamos.
Depois de aproximadamente 17 horas de atividade, entre subida, cume e descida, finalmente encerrávamos aquela jornada.
O cansaço era enorme. Eu estava exausto, desidratado e com o corpo completamente desgastado. Mas havia uma sensação que se sobrepunha a tudo isso: eu tinha conseguido.
Todo aquele ano de treinamento havia valido a pena. Cada sessão de academia, cada cardio, cada montanha enfrentada no Brasil, cada momento de preparação e cada vez que mentalizei que daria mais um passo fizeram sentido naquele instante.
O Parinacota havia exigido tudo de mim. Foi, até aquele momento, o desafio mais difícil que já havia enfrentado em uma montanha. Mas eu havia chegado ao topo.
Aos 6.348 metros de altitude, diante de uma das paisagens mais incríveis que já vi, eu havia cumprido o meu objetivo.
Mais uma montanha conquistada.
Mais um sonho realizado.
E principalmente, mais uma prova de que, enquanto eu tiver saúde e disposição para continuar, ainda há muitos cumes esperando por mim.
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